A Briga – Parte 1

post_colunapedro

Ramonzinho estava suando em bicas, estava nervoso. Mas ou ele virava as figurinhas ou seria zoado pela turma o resto da vida. Ele fizera a aposta. Se virasse, além de ganhar as figurinhas de seu arquiinimigo -  Renatinho “Bossa Nova” – ele ainda viraria uma lenda e entraria para história é claro. Não é qualquer um que faz a turma inteira da rua de baixo andar com roupas de menina pela pracinha.

Era uma melhor de três. Cada um casando as figurinhas mais valiosas que tinham – que na época eram na ordem, Romário, Maradona, Roberto Baggio, Stoichkov, Hagi e Batistuta. As regras eram à moda antiga: se não virar, passa a vez, se virar, tem o direito de começar a outra mão. Cada um fica com as figurinhas que virar. Escolheram um juiz neutro, Seu Eliásio, ou como os meninos preferiam na época, Tio Eli. Ele que tinha feito muito isso quando era criança, estava atento a qualquer trapaça de ambos.

Ramonzinho virou na primeira mão, com uma batida rápida e consciente. Ele tinha certeza de que ganharia fácil de Renato. Eles simplesmente se detestaram desde a primeira vez que se viram. Ramonzinho dizia que isso foi quando as babás encostaram o carrinho dos dois na pracinha. Um era o líder da Turma da Rua de Baixo o outro líder da Turma da Praça. Coisa de menino de cidade pequena. Cada um teve a sua turma em sua época. Mas agora a parada era séria. Era questão de orgulho e os meninos da rua de baixo nunca jogavam limpo. Ramonzinho seria herói.

Como não podia deixar de ser ele não virou a segunda mão. O destino parecia estar conspirando. Em toda final é assim que funciona, a tensão é sempre maior. Renatinho virou fácil a segunda mão. Vibrações curtas e nervosas do lado de lá. Era agora ou nunca. Ramonzinho casou o Romário e Renatinho casou Maradona. Esse então bateu e… as figurinhas nem se mexeram. Ele estava tão nervoso quanto seu inimigo da turma da praça, apesar de jamais admitir isso. Nenhum menino de 10 anos de idade tem medo.

Chegara a hora. A hora da redenção. A hora da glória. Ramonzinho sempre virava. Nem Tio Eli estava agüentando a tensão e disse com a voz angustiada “Anda logo menino”. Como se estivesse esperando apenas isso, ele foi lá e bateu. Foi uma batida perfeita, todo mundo diz até hoje que ninguém no mundo conseguiu bater uma figurinha daquele jeito. “Foi mágica” disseram alguns. Mas era uma final, era uma batalha e não podia ser tão simples assim. Renatinho quando viu que iria perder agiu rápido e meteu a mão em tudo. Foi uma confusão dos diabos. Todo mundo se engalfinhou. Contaram mais tarde que foi a maior briga que a pracinha já viu. Seu Eliásio quase ficou maluco, saiu gritando e separando os garotos. Pediu quase chorando que Fernandão o imenso garoto da turma da rua de cima largasse o coitado do Bruninho Vara Pau.

Xingamentos de ambos os lados, cada um recolheu seus pertences até Ramonzinho falar.
- Você perdeu. Me dá o Maradona.
- Não perdi nada, você robou. – disse Renatinho com um sorriso falso, essa também entrou para a história como a maior mentira já contada no mundo.
- Se você não me dar o Maradona eu vou bater em você até você chorar.
- Você vai me bater? – retrucou ele rindo desesperadamente – Eu acabo com você. Vai ter que voltar chorando pra casa seu filho da puta.
Um silêncio mórbido caiu como pedra sobre todos eles nesta hora. Era lei, mexer com a mãe era a pior coisa que um garoto poderia fazer com o outro. Mas a resposta de Ramonzinho foi a altura… na verdade, foi muito pior.
- Pelo menos eu tenho mãe.

Ninguém mais respirava naquele momento. Todos eles esperando, certos de que eles iriam se matar. As duas turmas queriam ir embora, aquilo estava ficando pesado demais. Tio Eli percebendo que a coisa estava indo longe demais disse tímido “Garotos, vamos lá, são apenas figurinhas”. Os dois garotos olharam para ele com um olhar tão assassino que ele simplesmente desistiu de falar qualquer coisa. Renatinho então disse:
- Amanhã, 11 da manhã, no meio da fonte seca. Eu vou te matar de porrada.
- Me dá o Maradona – disse Ramonzinho como se o outro não estivesse dando sua ‘sentença de morte’.
Renatinho virou as costas para ele e foi indo embora e antes que qualquer um tivesse alguma reação, ele jogou pedaços de uma figurinha para cima.
- Ele rasgou o Maradona! – disse Ramonzinho aterrorizado – Eu nunca vou perdoar ele. Amanhã ele tá no cú do Zé Esteves.

Fim da Parte 1.

Autor

5 Comentarios

Deixe seu comentario

Emoticons

Siga o Suspensa!
Twitter Orkut RSS-Feed Flickr
Assinantes - RSS FEED
Colunas
Parceiros
Pesquisar
Categorias
Arquivo
Recomendamos
Notícias
Usuários On-line
    online counter
TwitterCounter
Ultimos Comentários
Clicky Web Analytics